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Tipo vidro
Alguém já disse isso, mas eu repito: a vida é frágil como vidro. Muito frágil. Nossa.
Num momento tu olha pra cima e confere a cor da sinaleira. No outro, tá estirado no chão.
Num momento tu busca o ar. No outro, respirou a água.
Num momento tu acelera o passo e aperta a bolsa. No outro, o tiro chegou.
Num momento tu se equilibra. No outro, tá lá embaixo.
Num momento tu sente a fumaça. No outro, mais nada.
Não, não tô trabalhando pro governo norte-americano e fazendo as pessoas ficarem neuróticas (vide Tiros em Columbine). Só passei a observar isso ontem, saindo do serviço. É fácil planejar o final de semana, as férias, o passeio. Recebemos a dádiva de não saber quando nosso tempo termina. Os elefantes, coitados, já nascem sabendo, dizem.
Ano passado eu fiquei uma madrugada dentro do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Das 19hs às 7hs. Motivo? Fotografar, na maior cara-de-pau, a rotina do hospital na madrugada. Sexta-feira, véspera de um sabádo de feriado e semana Farroupilha. Tudo para dar errado, claro. Mas, supreendentemente (e felizmente), as doze horas passaram sem grandes tragédias. Vi vítimas de acidentes de trânsito, de brigas de rua, de atropelamento, até baleado. Mas nada tão parecido com as "aventuras" da antiga série Plantão Médico. Que bom, pensei eu. Que pena (?!), pensaram as repórteres.
Meia hora antes de sair, no entanto, chega uma ambulância com um rapaz, acho que pouco mais novo que eu, baleado na perna. Ele e a namorada tentaram fugir de um assalto e os ladrões atiraram. Ele estava relativamente bem, calmo, até. A namorada, disseram-no, foi levada para outro hospital porque estava num estado mais complicado. O "estado mais complicado" era metade do cérebro exposto por causa de um tiro na cabeça.
Nem todo o sangue que eu vi durante a madrugada me impressionaram tanto quando a certeza de que a guria não sobreviveria. Que no dia seguinte ela não estaria planejando o final de semana ou as férias ou o passeio. Que ela não ia mais pensar em quê profissão seguir, em quê roupa colocar para aquele encontro, em quê reposta chutar na prova. De noite, em casa, uma rápida nota simples no telejornal da região comunicou a morte de uma jovem que, eu sabia, era ela. Passei dias pensando nisso. E vou passar o resto da vida lembrando.
O resto desta frágil vida. Frágil tipo vidro. Ou mais.
Escrito por Cyka às 15h59
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Intergaláxia dentro daqui
Coisa de louco esse mundo. A gente sempre pensa que sabe o que é melhor pra todo mundo, mas volta e meia pedimos conselho. Se não pra alguém aí fora, pra alguém dentro de nós. Viajante? Talvez. Mas é verdade. O pensamento é rápido demais e a gente, lento. Pão de queijo. Poesia e boina na cabeça, estrada sob os pés. E bota estrada nisso. Asfalto, paralelepípedo ou grama? Tanto faz. Drama demais. Viiiix, quanta história. Será que precisa de tudo isso? Vai saber...
O mais estranho é ver como todo mundo sobrevive, afinal.
Escrito por Cyka às 19h38
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